Estamos entrando em um mundo estranho e novo, onde tudo pode ser falsificado de forma convincente. Vozes, rostos, textos, arte, conversas inteiras com pessoas que nunca disseram nada daquilo. A copia esta se tornando indistinguivel do original, disponivel instantaneamente, em quantidade infinita.
Quando isso acontece, algo muda silenciosamente. Durante a maior parte da historia, a copia era a versao barata e o original era o caro, mas pelo menos geralmente era possivel distingui-los. Em breve, muitas vezes nao sera mais possivel. E nesse mundo, a unica coisa que se torna preciosa nao e a qualidade, porque as falsificacoes serao de alta qualidade. E o real. A fonte humana verificavel, rastreavel, genuina.
A autenticidade esta prestes a deixar de ser um traco de personalidade e se tornar um bem economico. Talvez um de luxo.
O que ela realmente e
Autenticidade e a correspondencia entre o seu interior e o seu exterior. O grau em que o que voce mostra e o que realmente esta la.
E em um mundo de falsificacoes infinitas, ela se estende para algo quase fisico: procedencia. O fato verificavel de que algo veio de uma fonte real, de uma mao real, de um momento real que realmente aconteceu. Nao "isso e bom?" mas "isso e real, e posso saber que e?".
Esses dois significados estao convergindo. A dimensao interna — ser genuinamente o que se aparenta ser — e a externa — ser uma fonte real verificada num mar de copias sinteticas — estao se tornando a mesma qualidade escassa. A pessoa real, fazendo a coisa real, rastreavel ate uma vida autentica.
Estamos comecando a desejar a falha.
O que ela nao e
Autenticidade nao e compartilhamento excessivo. A pessoa que conta tudo a voce, que trata cada sentimento como algo que o mundo precisa ouvir, nao esta sendo autentica. Ela esta encenando uma versao de autenticidade, o que e sua propria forma de falsidade.
Nao e usar "ser voce mesmo" como licenca. "E assim que eu sou" e, na maioria das vezes, uma desculpa para nao fazer o trabalho de se tornar alguem melhor. Autenticidade real nao e algo fixo que se defende. E uma correspondencia que se mantem.
E nao e a marca da autenticidade, aquela performance polida de crueza e vulnerabilidade que se tornou sua propria industria. A confissao cuidadosamente iluminada, a admissao estrategica de uma falha, o vislumbre fabricado dos bastidores. Quando o real se torna estrategia de marketing, deixa de ser real. Esse e o paradoxo que a proxima decada vai afiar ate virar ponta.
Onde se pode ve-la na vida cotidiana
Um amigo lhe manda uma mensagem longa depois que algo dificil acontece, e voce percebe, simplesmente percebe, que ele sentou e escreveu aquilo, buscou as palavras, encontrou algumas ligeiramente erradas daquela forma que so o esforco real produz. Compare isso com a nota perfeitamente composta que voce suspeita ter sido gerada em dois segundos. As mesmas palavras, talvez. Um presente completamente diferente. O valor nunca esteve na prosa. Estava no fato de que uma pessoa se gastou por voce.
Uma refeicao cozinhada por alguem que ama voce, imperfeita, um pouco desigual, feita por maos que escolheram faze-la. Nenhuma versao otimizada, entregue e impecavel se compara, e todos sabem disso, e ninguem consegue explicar completamente por que. O por que e procedencia. Veio de uma fonte real que fez com intencao.
Um show ao vivo em que a voz do cantor falha na nota alta, e a plateia o ama mais por isso, nao menos. A falha e prova. Prova de que isso esta acontecendo, agora, na sua frente, executado por um ser humano real e falivel, e nao montado por uma maquina para ser perfeito. Estamos comecando a desejar a falha.
Por que ela se torna o gargalo
Quando as falsificacoes eram raras e obvias, o real era simplesmente o padrao e ninguem pensava nisso. Nao se pagava um adicional por uma conversa real porque todas as conversas eram reais. Mas escassez cria valor, e estamos prestes a tornar o real escasso ao afogar o mundo em imitacoes convincentes.
Entao o premio se desloca. Nao para o mais polido, porque polimento agora e gratuito e infinito. Para o verificavelmente humano. "Feito por uma pessoa" se torna um rotulo pelo qual as pessoas pagarao, do mesmo modo que "feito a mao" e "em pequenos lotes" e "cultivado, nao fabricado" ja exigem um premio hoje. Ja vimos esse filme com bens fisicos. Estamos prestes a ve-lo se desenrolar em tudo: escrita, arte, musica, conselho, companhia, a propria atencao.
A versao mais profunda disso trata de conexao humana. Em um mundo onde nao se pode ter certeza se o calor do outro lado da tela vem de uma pessoa ou de um sistema projetado para simular uma, a certeza de estar lidando com um ser humano real que realmente sente aquilo se torna a coisa de maior valor. Nao o cuidado mais articulado. O cuidado do qual se pode confiar que e real.
Uma pergunta para deixar amadurecer
Volte-a para dentro, porque e aqui que fica desconfortavel e util.
O que na sua propria vida e real, e o que e atuacao? A versao de si mesmo que voce apresenta, o calor que expressa, o interesse que mostra, a pessoa que voce parece ser online e nas salas. Quanto corresponde ao que realmente esta dentro, e quanto e uma copia que voce aprendeu a executar?
A verdade inquietante e que a maioria de nos ficou tao boa na atuacao que ja nao consegue distinguir completamente. E a capacidade de conhecer a diferenca em si mesmo, de permanecer real consigo antes de qualquer outra pessoa, pode ser onde todas as outras formas de autenticidade precisam comecar.